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| António Borges (1949-2013) |
Perdemos um português culto e corajoso
O nome de António Borges há muito que anda nos meus ouvidos. Mas a verdade é que não sabia o que pensava, e sobretudo não sabia como pensava. Ouvi e vi com curiosidade a entrevista televisiva que marca a sua entrada de leão na arena política nacional. Pareceu-me um liberal prudente e avisado (não um neoliberal qualquer). Pareceu-me uma pessoa decidida e corajosa, sobretudo quando denunciou a incompetência, a subsídio dependência e a corrupção endémicas que afectam as nossas elites partidárias, políticas e empresariais. Foi saudavelmente urbano na maneira como endereçou cumprimentos ao novo governo. O modo convicto como falou das novas gerações, nomeadamente de empresários e profissionais qualificados, que afirma serem decisivas para ultrapassar a mediocridade e desorientação estratégica que atingiram este país, tocou positivamente o meu nervo intuitivo. Farto da verborreia gasta e pitonísica dos políticos profissionais portugueses surpreendeu-me positivamente a eloquência pragmática e desassombrada deste político em ascensão. Seria um excelente mandatário de Cavaco Silva. O PSD precisa dele. E o equilíbrio da nossa democracia também.
O António Maria, 27 de março de 2005
A falta de paciência de António Borges para a mediocridade portuguesa há muito instalada foi o seu maior ativo. Ouvi-o e li-o com atenção. Dizer que António Borges era um liberal, conhecendo-se o grau de corrupção e inépcia a que chegou o capitalismo corporativo em Portugal, só pode ser entendido como um elogio. Sem mais liberdade, nomeadamente contra o oligopólio asfixiante das várias castas de rendeiros e devoristas do regime, e sem mais democracia participativa, contra o corrupto demo populismo dominante, Portugal continuará a cavar a sua própria sepultura.
António Borges tinha uma visão financeira do mundo e da globalização. Não chegou a ver, creio, o problema de fundo dos recursos e do fim à vista de uma era inflacionista e de crescimento rápido. Viu demais o mundo através dos binóculos invertidos da Goldman Sachs. Mas sobre o analfabetismo funcional endémico dos portugueses, a indolência e corrupção da política lusitana, e o provincianismo indelével das elites indígenas, viu tudo o que queria e o que não queria.
Que descanse em paz!
António Cerveira Pinto
